Histórias reais · Com fontes · Sem conteúdo explícitoPelo ator pornô Maximo Garcia
Retrato de Belle Knox (2014), fotografada por Baldwin Saintilus from USA
Belle Knox · Foto: Baldwin Saintilus from USA / CC BY 2.0
Minha opinião · Belle Knox

Belle Knox: a estudante da Duke que foi exposta, ameaçada e se recusou a sentir vergonha

Uma conta de 4.300 dólares por mês, um colega que quebrou a promessa e uma garota de 18 anos que decidiu reagir. A história real de Belle Knox, com fontes e sem conteúdo explícito.

Maximo GarciaPor Maximo Garcia

Fatos principais

  • Nome verdadeiro: Miriam Weeks (Wikipedia, Rolling Stone)
  • Cidade natal: Spokane, Washington. O pai era médico militar, e a família se mudou muito antes de se fixar lá (Rolling Stone)
  • Por quê: ela disse que tinha uma conta de US$ 4.300 por mês e não queria ficar “endividada com um banco por décadas” (The Globe and Mail)
  • Início: novembro de 2013, viajando para Los Angeles nas férias da faculdade (Wikipedia)
  • Exposta: em 10 de janeiro de 2014, por um colega da Duke (Wikipedia)
  • Curso: estudos de gênero e sociologia (The Independent, Wikipedia)

Quem é Belle Knox? A resposta curta

Belle Knox é o nome artístico de Miriam Weeks, que no início de 2014 virou uma das universitárias mais comentadas dos Estados Unidos. Era caloura da Duke University, pagava os estudos com filmes adultos, e um colega a expôs. O que veio depois a deixou famosa: assédio, ameaças de morte e uma maratona de entrevistas na TV nacional. A resposta dela também. Ela não ia pedir desculpas.

Este não é um texto de escândalo. É uma história sobre dinheiro, privacidade e uma jovem de 18 anos que decidiu ser dona da própria narrativa quando todo mundo tentava escrevê-la por ela.

Uma menina estudiosa de Spokane

Weeks contou à Rolling Stone que o pai era médico militar e que a família se mudava muito antes de se fixar em Spokane, Washington. Lá, ela estudou num colégio católico particular. A revista a descreve como nerd e estudiosa, cocapitã da equipe de debate e fundadora de uma ONG (Rolling Stone).

Entrar na Duke foi um feito. Ela disse à revista que foi “a única pessoa da minha escola em 10 anos a entrar na Duke”. Aí a conta parou de fechar. Segundo a Rolling Stone, depois que ela entrou na Duke, o pai foi convocado pela reserva do Exército para o Afeganistão, ganhando menos da metade do salário anterior. Ela disse que pediu à Duke para rever a ajuda financeira, e “eles não deram a mínima” (Rolling Stone).

A matemática por trás da escolha

Em entrevista ao canadense Globe and Mail, ela explicou sem rodeios:

“Eu precisava de um jeito de pagar a faculdade. Não queria ter que pegar empréstimos e ficar endividada com um banco por décadas. Eu sabia que, fosse qual fosse o emprego que eu conseguisse, não daria para pagar a conta de US$ 4.300 que chegava todo mês.”

— Belle Knox ao The Globe and Mail (fonte)

A Wikipedia, resumindo as entrevistas dela, acrescenta a comparação que a convenceu. Como garçonete, ela ganhava menos de US$ 400 por mês, já descontados os impostos, num horário que batia com as aulas. Também lhe disseram que ela não tinha direito a empréstimo estudantil do governo (Wikipedia). Ela começou em novembro de 2013, viajando para Los Angeles nas férias da faculdade.

O jeito como ela achou o trabalho foi quase cômico de tão simples. “Eu literalmente joguei no Google ‘como virar estrela pornô’”, disse ao New York Daily News, citado pelo The Independent. “Em poucos dias, literalmente, já estavam me ligando” (The Independent).

O nome foi criação dela. “Belle” veio de A Bela e a Fera, da Disney, e “Knox”, do fascínio dela por Amanda Knox (Rolling Stone).

A exposição

Em 10 de janeiro de 2014, um colega da Duke contou aos colegas de fraternidade sobre o trabalho dela. Os dois dão versões diferentes de como ele ficou sabendo, mas a notícia se espalhou pelo campus. Quando ela voltou das férias de inverno, o Facebook pessoal dela tinha mais de 230 pedidos de amizade (Wikipedia).

O linchamento virou nacional. A Rolling Stone conta que apresentadores de TV e comentaristas deram pitaco sobre o pai dela, o futuro dela e as escolhas dela (Rolling Stone). Os fóruns na internet, segundo a revista, estavam “cheios de insultos e até ameaças de morte”.

Ela escreveu sobre isso com o próprio nome numa coluna para o xoJane. O The Independent citou a recusa dela:

“Porque os valentões do mundo, a começar por aquele rapaz da Duke que quebrou a promessa que me fez, não mandam na minha vida.”

— Belle Knox, no xoJane, citada pelo The Independent (fonte)

“Meus inimigos são meus motivadores”

O que acho notável é a velocidade com que ela passou de alvo a porta-voz. Ao Globe and Mail, foi franca sobre privacidade: “Só porque faço trabalho sexual não quer dizer que eu não mereça algum nível de privacidade na minha vida”. Admitiu que foi “provavelmente ingênua ao achar que conseguiria manter isso em segredo” e rejeitou a ideia de que ser exposta e ameaçada fosse o preço do trabalho (The Globe and Mail).

Também foi honesta sobre o preço: “Teve momentos em que não me senti forte. Tive vontade de chorar e ficar deitada na cama.” E disse o que pretendia fazer: “Pretendo me formar com a minha turma na faculdade dos meus sonhos”. Agradeceu o apoio dos amigos e da comunidade LGBTQ da Duke. Também disse que foi “culpabilizada pela polícia” quando denunciou as ameaças.

O objetivo de longo prazo? “Quero ser advogada dos direitos das mulheres, advogada de direitos humanos”, disse ao jornal.

Ativismo, prêmios e o debate maior

Nos meses seguintes, Weeks falou em aulas da Duke e de outras faculdades. Ela se definia como feminista pró-sexo e libertária, trabalhou com o Students for Liberty e disse ter sido nomeada para o conselho do Sex Workers Outreach Project (Wikipedia). A história dela virou ficção em Law & Order: SVU e foi o tema da série documental Becoming Belle Knox. Ela ganhou um Fanny Award em 2014 e um prêmio XBIZ em 2015.

A Rolling Stone pediu a opinião da veterana Nina Hartley, muitas vezes chamada de madrinha do pornô feminista pró-sexo. Hartley avisou que, se Weeks virasse advogada, “ela vai ter que ser duas vezes melhor para as pessoas superarem o passado dela” (Rolling Stone).

Nem todo mundo ficou do lado dela. A Wikipedia reúne críticos que questionaram se esse trabalho pode ser empoderador, ao lado de comentaristas que apontaram o duplo padrão: ninguém fez campanha de ódio contra o estudante que assistiu aos vídeos e a expôs (Wikipedia). Os dois lados estão registrados.

Minha opinião (opinião — Maximo Garcia)

Já estive em sets com colegas que tinham emprego fixo, diploma e família que ninguém da internet conhecia. O que aconteceu com Miriam é o pesadelo de todo artista: alguém pega o limite que você definiu, seu nome verdadeiro, e entrega para a multidão. Repare em como ela lidou com isso. Não se escondeu e não fingiu um pedido de desculpas. Fez as contas em voz alta: US$ 4.300 por mês contra o salário de garçonete.

A lição para qualquer um neste meio é que privacidade é um plano, não uma esperança. Contas separadas, nomes separados, uma história que você está pronto para contar com as suas próprias palavras. E para quem adora julgar? O cara que a expôs assistiu aos vídeos primeiro.

Se quiser ver como falo desse trabalho por dentro, tudo que faço está em maximogarciaworld.com. Para uma história bem diferente de faculdade e pornô, com um final mais feliz, leia sobre Abella Danger e a Universidade de Miami. Para outra artista que enfrentou o estigma do “você nunca mais vai trabalhar”, veja Bree Olson.

Perguntas frequentes

Qual é o verdadeiro nome de Belle Knox?

Miriam Weeks (Wikipédia).

Por que Belle Knox fez filmes adultos?

Ela disse que era para pagar uma conta mensal de US$ 4.300 da Duke sem se endividar por décadas (The Globe and Mail).

Como Belle Knox foi exposta?

Um colega da Duke contou aos colegas de fraternidade em janeiro de 2014 (Wikipedia).

De onde veio o nome Belle Knox?

De A Bela e a Fera e de Amanda Knox (Rolling Stone).

Como checamos as informações

Cada fato e cada citação foram conferidos com as fontes abaixo. As citações aparecem como as fontes as publicaram, e as afirmações sobre terceiros estão atribuídas. O que não conseguimos confirmar ficou de fora.

Fontes

Arquivado em: Atrizes que fizeram faculdade · Ativistas e empresárias

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Maximo Garcia, ator pornô e autor da Casa do Maximo
Sobre o autor

Maximo Garcia

Catorze anos no cinema adulto. Um dos atores mais buscados do mundo. Já gravou com a maioria dos grandes nomes da indústria — e na Casa do Maximo conta as histórias reais delas, com o olhar que só quem está lá dentro tem.

Espanhol, mora numa pequena ilha em Bohol, nas Filipinas. Todo fato tem fonte; toda coluna é a opinião dele.

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